Demónios debaixo da cama 

  Era uma vez um menino. Pequeno. Teria os seus 5/6 anos e acreditava que o mundo era confortável e seguro. Também acreditava piamente que havia monstros debaixo da sua cama. Acreditava que eram demónios que o perseguiam, que o queriam torturar enquanto ele dormia.
  O menino cresceu. Tem 16 anos, é alto, magro e fiquemos por aqui. Já não acha que tem monstros debaixo da cama embora, por vezes, não seja fácil ter a certeza se eles estão lá ou não. Porém, tem os seus demónios. Sim, ele tem os seus demónios. Vê-os por vezes, mas, geralmente, sente-os. Na sua pele e na dos outros. Às vezes, são os outros os seus demónios. 
  É estranho como todos nós pensamos que os demónios são palpáveis e não estão na terra. É mentira. Quantas vezes vamos para a escola a pensar na discussão de ontem com os pais? Naquela sms em que alguém diz que não se interessa mais por nós? Quantas vezes vamos para lá a pensar que não somos bonitos? A pensar que nunca vamos conseguir ser assim neste aspeto ou naquele? A pensar que temos um cabelo horrível? A pensar que nunca vamos encontrar ninguém que gosta de nós? A pensar que sentimos a falta de alguém? Quantas vezes acontece? Todos nós sabemos a resposta.
  Os demónios estão dentro de nós. Nós somos os nossos demónios, complementados pelas regras que outrem disse que teriam de ser cumpridas. Quem disse que todas as pessoas têm de ser magras, bonitas, simpáticas, inteligentes, extrovertidas, bem-educadas, heterossexuais, brancas, com uma pele bem cuidada? Quem disse? Ninguém disse, mas todos partimos do pressuposto que as pessoas têm de ser assim. Contudo, ninguém vê o que isso faz às pessoas. A lavagem que lhes faz à alma, aquilo em que os faz pensar. Ninguém vê o quanto o seu coração aperta quando lhes dirigem um comentário que só acentua os seus defeitos. 
  É tão estranho como o ser humano quer tanto ser perfeito, mas depois vê que não tem de o ser e continua a exigi-lo. Quantos de nós não exigem que os outros vistam aquilo, digam aquilo, façam aquilo, sejam aquilo? Exigimos tanto e queremos dar tão pouco. Porque é que as pessoas não dão apenas quem elas realmente são? Quem elas gostam de ser? E porque é que NÓS, TODOS NÓS, não paramos de exigir aos outros que se transformem no que não são? 
  A vida tem tantas regras. Ninguém nos diz essas regras, é verdade, mas todos nós as apreendemos. E todos nós temos uma vivência diferente e seguimos regras diferentes. Aquilo que devemos fazer em primeiro lugar é olhar o outro. Não é olhar PARA o outro, atenção! Devemos, sim, olhar o outro. Ver na sua pele esticada ou enrugada, no seu sorriso aberto ou fechado, na sua voz calma ou turbulenta o quanto passou na vida. Aquilo que sentiu. Aquilo que viu. Aquilo que ouviu. Aquilo que leu. O resto virá. O respeito virá. Um dia, ele virá!

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