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Outonalidades

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A (des)coloração
O Outono já se instalou e, nos campos em redor, as belas cores da estação já fizeram a sua aparição. O amarelo, o cor de laranja, o castanho, o verde e o vermelho misturam-se numa harmonia perfeita que, na realidade, nada mais é senão o princípio do fim: em breve, cairão as folhas e o frio do Inverno matará a beleza poética do Outono.   O Outono agrada-me, assim como os últimos meses do ano. É a estação da mudança e, ao mesmo tempo, do sossego. A chegada do Outono e os primeiros dias de frio são mágicos para mim, pois representam um período de reflexão e de uma certa paz para mim. Assim como as folhas das árvores, também as nossas almas começam a revestir-se de outras cores, cores essas que são fruto da experiência acumulada ao longo do ano. É a hora de colher os ensinamentos que nos trouxe este ano e de preparar o ano que se avizinha.

  Creio que já refleti sobre os ensinamentos que este ano trouxe; se calhar, até já refleti demais. Está na hora de certas folhas e de c…

Petit poème en prose

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O Crepúsculo da Alma

A noite vai-se arrastando e vai desfilando languidamente por cima das nossas cabeças. Qual mulher parisiense perfumada e ornamentada, a noite vai refrescando o ar rebentado de calor e faz entrar a brisa neste apartamento onde me abafo até ao Infinito. O dia de sol, belo e brilhante, causa-me desconforto, pois vivo em paradoxo. Amo o sol, amo as claridades e, no entanto, elas ferem-me, entram-me nos olhos com o poder de um tirano e arrancam a minha disposição. Vivo para as claridades porque fujo delas e as procuro em simultâneo. Tento escapar ao calor que tolhe, abate, faz ranger os nervos e magoa a alma, mas ninguém escapa às garras dele. O suor cai pelo corpo abaixo, a energia esmorece, a calçada brilha de loucura solar.   Tudo isto tem implicações nesta vida de afazeres da utilidade burguesa contemporânea, em cuja sociedade nos integramos. Movidos pelo ideal (talvez) nobre da eficácia, enfiamo-nos em edifícios que se alargam com o calor e que pedem leques a toda …

Reflexões contemporâneas

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Dívida Humana 
“Todos os dias, no aeroporto militar da cidade de Guatemala, um avião de 147 lugares aterra, transportando emigrantes capturados nos EUA e enviados para o seu país de origem.” Não sou eu que o digo. Limito-me a traduzir aquilo que aparece no instagram do jornal francês “Le Monde”. No conjunto de instastories do jornal, há um que me chama particularmente a atenção: Gracia, uma bombeira do Guatemala, dirigiu-se para o aeroporto para receber o seu irmão, mas ele não chegou hoje. Terá de voltar amanhã… As comunicações quase não são permitidas, daí haver dificuldades em saber em que dia chegam aqueles que foram expulsos.   Sentado num sofá confortável a observar as árvores e as plantas que começam a surgir nesta Primavera, ponho-me a pensar. Penso no sofrimento, na tristeza e na nossa ataraxia. Na nossa maldita calma, no nosso conforto burguês que é interrompido pelas nossas preocupações diárias, pelos pequenos “nadas” que nos chateiam. Penso no sofrimento dos outros, expulso…

Short story

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Nota inicial
  Olá a todos! Já se passaram alguns dias desde a última vez que escrevi no blog. No entanto, como não vos quero desapontar, decidi trazer algo novo: uma short story. Hoje, publicarei a primeira parte desta short story ainda em construção. Trata-se de um desafio que estou a impor a mim mesmo, pois "obrigar-me-ei" a escrever uma narrativa mais longa e diferente de outros textos anteriormente publicados. Para além disso, trata-se de um desafio para vocês, leitores, que terão de esperar pacientemente pela continuação desta short story...
  Boas leituras! 

Linhas Cruzadas, Artes Amadas
Parte I 
Era mais um dia de Inverno. Lisboa vestia-se com casacos pesados, optava por cachecóis de malha e metia meias em cima de meias para cobrir o seu frio. Uma rapariga saía de um prédio. Era um prédio banalíssimo, de um branco já sujo pela idade e pelo tempo, onde se aglomeravam essencialmente famílias da classe média. Maria era uma exceção. Com 21 anos, vivia na grande capital de Por…

2017

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O Balanço de um Ano

Olá a todos! Depois de muito tempo a publicar somente textos literários, decidi escrever sobre outros assuntos. 2017 foi muito bom em termos de produção literária para mim, mas acho que, neste momento, a minha inspiração não é igual e, por isso, vale a pena abordar outros temas.   Decidi falar acerca do meu ano de 2017 e vou dividi-lo em várias partes. Confesso que este ano foi, em certa forma, um ano mau, mas acho que está a acabar bem. Ora vamos lá ver como foi este ano.


1 – Amizades
  Obviamente, houve pessoas importantes a aparecerem na minha vida, mas, mais do que isso, houve uma “redefinição” de várias amizades.   Neste momento, posso afirmar, sem dúvida nenhuma, de que sei quem são as pessoas mais importantes na minha vida. Não tenho de estar sempre com elas para saber o que elas significam para mim e o quanto me ajudam, mesmo não sabendo. São essas pessoas que me respeitam como eu sou, que conhecem os meus medos, os meus trunfos, que estão lá para mim e que…
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Intermitências do Eu


Entro no café. São 22:33, mas isso eu não poderia dizer. Não uso relógios. Deixo o tempo correr; se alguém o quiser tornar mais preciso, que o torne.   Entro no café. São 22:33. Sinto-me pronto a mergulhar, mais uma vez, numa bela chávena de café. Afogar-me-ei nessa bebida afrodisíaca que ora me eleva ora me mata. Sinto o meu corpo a mover-se e a entrar na sala. Um corpo esguio, alto, revestido de peças pretas.   Lá dentro, a luz que vibra e que torna tudo berrante e sensitivo contrasta com a minha roupa preta. Sinto-me um estrangeiro na Índia das cores ou no Brasil dos sabores. Estou apenas num café.   Ninguém me vê neste local. Neste canto que não foi retratado. Sento-me e penso na energia das cores, porventura mais belas - porque mais contrastivas -, do que as do dia. O verde do teto fere-me a alma, ao passo que o vermelho berrante da parede me deixa em êxtase.   As pessoas agrupam-se. São poucas, mas estão quase todas acompanhadas. Uma mesa com 2 pessoas ali a…

Monet, luzes e ação

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O fim de tarde chega, de mansinho, prestes a refrescar a paisagem queimada pelos raios de sol enraivecidos de Verão. É ele que transforma o céu numa obra de arte, que contemplo como se visse a pureza do Universo a voltar a mim. Saio à rua finalmente e tento fixar, na minha difícil memória, a cor das nuvens que se descola daquele céu azul claro.   Tento fixar a cor das nuvens porque só elas me trazem um pouco de calma, um pouco de paz aos meus dias de raiva, de ódio, de pânico, de gritos secos dados no meio da escuridão. Vejo-me a anoitecer (de que dia falo eu?) e estico o meu corpo ágil em direção àquelas cores que pairam no céu, como se elas conseguissem preencher este vazio, esta insatisfação, esta falta de me ser, esta raiva de tudo me martirizar. Quero dançar ao som do vento e tornar-me laranja ou então um vermelho cor de sangue, como aquela nuvem perto da torre. Quero sentir aquele azul a tombar para negro de que se reveste o céu pré-noturno. Quero mergulhar no tom esbranquiçado …