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Textos da quarentena 9

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O Baú Mental


As cores. As cores deste quadro fazem-me lembrar dias iluminados, dias solarengos. Dias tipicamente portugueses. Também as cores deste quadro me fazem lembrar as cores portuguesas. O quadro não foi pintado em Portugal, mas a beleza da arte é precisamente esta: a de nos fazer pensar, sentir ou recordar coisas que não estão diretamente relacionadas com o que é representado. Podemos pensar no quadro em si, mas também podemos ir além. Podemos pegar naquilo que a arte nos oferece, podemos usufruir das suas sugestões e ir além daquilo que ela nos apresenta.    Creio que foi o amarelo o culpado. Talvez o azul também. Fizeram-me lembrar casas amarelas que vi em Coimbra ou até noutras cidades portuguesas. Casas para as quais olhei, mas que não vi. Olhei para elas só com os olhos, sem nunca pensar naquilo que significavam, naquilo que significam, naquilo que sugerem. Talvez toda a mistura de cores me tenha feito pensar no meu país. Talvez o sol. Talvez não haja um elemento concreto a…

Textos da quarentena 8

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Jogo de sombras
Tudo é sombra. Apenas vejo os contornos de alguns objetos. Uma cadeira, uma cómoda, uma pasta com papéis, uma porta, cortinas a esvoaçar conduzidas pela mão do vento… Mais um dia de Verão que chega ao fim. Mais um dia de Verão do qual não sobra mais nada a não ser a sombra que fica e as parcas luzes que se vão. No meio destes corredores abafados, sem luz alguma a não ser aquela que o céu ainda tem forças para enviar, perco-me em suores que não sei. Observo janelas nos quartos onde poderia entrar, as cómodas onde poderia ter assentado as minhas coisas, sinto-me como que numa flutuação. Alguém acendeu uma luz. Vou apagá-la. Neste jogo de luz e sombras, quero tornar-me um espetro, sentir os tons da luz como se fosse Monet a pintar os seus nenúfares de sedução. Capturar o efémero porque só ele nos interessa. Só ele nos é e só ele dá sentido ao que é eterno, constante, comum, basilar… A luz está apagada. Bebo da sombra como se não pudesse beber mais nada. Derreto-me nas pared…

Textos da quarentena 7

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Os Modismos Linguísticos
  Não é à toa que se diz que uma língua é viva ou que uma língua é morta. Uma língua viva, por definição, é falada por vários indivíduos - uma parte deles nativos, mas não só - e vive efetivamente. Vive, na medida em que precisa de se adaptar aos tempos, às necessidades e às ideias das diferentes épocas para ser um verdadeiro instrumento de comunicação. Uma língua viva é, portanto, uma língua que está em contacto com outras e é ainda uma língua que tem os seus gostos, as suas manias e as suas particularidades, um bocadinho como cada um de nós.    Como afirmei anteriormente, uma língua viva está em contacto com as outras. Vamos, então, passar à língua que quero pôr aqui em destaque hoje: o Português. O Português está em contacto com outras línguas há muito tempo. Temos fronteiras com Espanha, portanto, convivemos com os dialetos do outro lado da península desde há muito tempo, mas a nossa língua também esteve em contacto com outras um pouco mais distantes. É o ca…

Textos da quarentena 6

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Mulheres no jardim


Não estou no jardim. Não naquele que tu vês. Estava ali à mesma hora, mas estava escondido. Decidiram, por isso, pôr-me de parte. Esquecer-me. Não me sinto triste; afinal, é essa a estética do Impressionismo... O essencial é captar os momentos em toda a sua beleza, em toda a sua magia e em toda a sua luz. Pouco importa se eu estou ou não na composição, visto que não fiz parte da impressão que se queria veicular.    No entanto, lembro-me bem desse dia. A Primavera acabara de se instalar. O sol começava a aparecer mais vezes e os dias tornavam-se tépidos e limpos. As flores apareciam, como se pode ver naquela planta por trás da árvore majestosa. O branco dos vestidos confundia-se com o branco das flores e sobressaía ainda mais devido à luz solar. Tudo parecia leve. Só eu é que não me sentia assim. Eu não me sentia mais leve. Talvez me sentisse ligeiramente menos perturbado do que no dia anterior, mas a Primavera não operara um renascimento total no meu ser. Ainda me se…

Textos da quarentena 5

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Inefabilidade distópica

Estávamos numa das ruas de Rouen. Penso que seria a Rue Saint-Romain, que nos leva desde a magnífica catedral até à igreja Saint-Maclou. Estávamos ali, envolvidos pelas gárgulas da catedral e pelo aspeto simultaneamente sombrio e belo que emana dos monumentos góticos. O céu estava a pôr-se e as cores de que se revestia fizeram-me lembrar o meu terraço, a mais de 1500 km de distância. Não eram as mesmas cores. Não era a mesma luz. Ali, havia uma luz setentrional, menos branca, em que os tons escuros sobressaíam mais, ainda que os tons claros não tivessem desaparecido totalmente. Estávamos noutra latitude, estávamos noutro universo luminoso, o que não me impediu de pensar nos vários pores do sol que havia contemplado do terraço da minha casa. Creio que as reminiscências são assim: vêm quando menos se espera, por coisas mínimas. Lembramo-nos de gestos, de sensações, de pessoas, de palavras, de ideias e de momentos devido a pequeníssimos acontecimentos quotidianos. …

Textos da quarentena 4

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Vivemos por contrastes
  Talvez todos os computadores e relógios desta casa marquem a mesma hora. São 23:18 de uma noite de março, mais uma que se perderá nos anais do tempo. Mais uma noite em que os corpos cansados suspiram pelo abraço dos lençóis e pelo doce embalo do sono. Suspiraria eu também se soubesse que poderia dormir descansado e acordar fresco na manhã seguinte, prestes a colher a beleza do dia. Como tenho receio de que a noite não me embale inteiramente nos seus braços, dedico-me à escrita, pois sei que saberei apreciar o fruto de amanhã, venha ele revestido de inúmeras horas de sono ou não. Escrever é um bálsamo que funciona como um vidro. É usando palavras, procurando sentidos e arrancando verdades do coração que o nosso edifício interior faz uma ponte com o desconcertante mundo exterior. Vejo a rua por dentro e por fora em simultâneo. As sombras do interior não se projetam apenas em mim: elas saem do que eu sou para deixarem uma marca nesse exterior. Pudesse eu recolher-…

Textos da quarentena 3

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Personalidade social proustiana
Comecei ontem a ler Marcel Proust. Já há muito tempo que o desejava fazer, mas a falta de tempo ou o medo de entrar na obra de um escritor tão reputado e muitas vezes considerado difícil impediu-me de o fazer mais cedo. Proust tem de se ler devagar. As suas frases são tão magníficas quanto exigentes. Até agora, ainda assim, a fruição estética tem prevalecido e estou apenas no segundo dia de leitura. Por esse motivo, partilho aqui uma citação que me agradou particularmente e sobre a qual tecerei uma reflexão. Nada temam: a citação está em francês, mas vou traduzi-la para a compreensão de todos. 
"Mais même au point de vue des plus insignifiantes choses de la vie, nous ne sommes pas un tout matériellement constitué, identique pour tout le monde et dont chacun n'a qu'à aller prendre connaissance comme d'un cahier des charges ou d'un testament; notre personnalité sociale est une création de la pensée des autres." - Du côté de chez Sw…