Mensagens

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Choro de Palavras
  Imperscrutável. Gostaria que o meu rosto se tornasse imperscrutável. Que fosse sempre imperscrutável, como a brisa noturna que me acaricia os pés ao mesmo tempo que me esvazia os pulmões de melancolia. Gostaria de deixar de ser um aglomerado de raiva e de tristeza contra alguém ou contra alguma coisa cujo nome anseio descobrir. Gostaria de ser uma alma da ataraxia, mas sou um boneco demasiado humano que sente tudo e que tudo deixa alojado na sua alma. O dia esmorece e nunca estive tão feliz por isso. O calor enlouquecedor da tarde dissipa-se e dá origem a um crepúsculo tingido de roxo, cinzento, laranja e azul. O calor e a luz lancinantes matam-me de dia e só o reinado do crepúsculo me faz, enfim, suspirar. Sinto uma ligeira acalmia; a vontade de rasgar a caixa torácica e de me esganar num grito apazigua-se. A brisa leva os pensamentos inconstantes que se apoderam de mim e põe fim a mais um dia. Um dia como qualquer outro, em que tudo quis fazer, mas não sei se fiz a…

Sufoco urbano

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Abafo. Abafo dentro desta casa, destas paredes sem vida, brancas de lividez e de dias aqui passados. A noite chama-me. O vento é frio, a chuva vai fustigando os poucos que se aventuram a sair de casa, mas está na hora de sair. Cometer uma pequena loucura num mundo racional.
  Visto-me, pego no chapéu de chuva e vou-me embora. Pudesse eu ir-me embora de vez… Como daquela vez ao pé do Tejo, onde via os reflexos da luz caírem pelo rio abaixo, e eu imaginava-me a ir, a partir, a levantar voo. E agora estou só, mergulhado na noite citadina, esmagado pelos edifícios que me envolvem, ninguém se atreve a sair de casa, oiço dois ou três carros que passam corajosamente por mim. Nem posso deambular como deve ser, a noite não me quer longe, fico por aqui, tem de ser… Vou pelas ruas da vizinhança, no meio do ar húmido, e ando para cima e para baixo a olhar para edifícios e edifícios entrecortados por uma rara vegetação deixada para trás pela contemporaneidade urbanística. Não tenho destino, nem s…

Ficções

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Chá de Alma


Sol.   Hoje o tédio levantou-se cedo, saiu da cama, viu o sol. “O dia está belo” – pensou. Belo dia para se passear pelas almas afadigadas, para se mostrar nas ruas, para se divertir com os burgueses. O tédio veste-se. Um manto púrpura brilhante, escondendo roupas pretas, evidentemente. Empalidece propositadamente, busca com mãos venenosas a sua escova, penteia-se de modo arrojado, louco, frenético.   Aí vai ele, deslizando, desfilando, como se todo o mundo fosse dele, como se esta vida não lhe pertencesse senão a ele. O tédio desfila e, no seu manto, pode ler-se “Chamem-me tédio, spleen, ennui, mal-estar ou sadness. Não interessa o meu nome”. Realmente, não interessa o nome que se lhe dá e, no entanto, sem esse nome, sem esse epíteto vivo, o tédio não seria mais do que uma mera forma estranha. O seu nome é a sua identidade.   O desfile ainda não terminou. O sol. Faz-lhe bem o sol, pelo menos assim pensa. Adora passear-se ao sol, sempre poupa um pouco as suas queridas pres…

2018

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Balanço do ano de 2018

Parece impressionante a velocidade a que um ano passa… Quando estamos “dentro” do ano, bem lá no meio, não nos parece tanto assim, mas a verdade é que eles não passam assim tão devagar. Parece que ainda ontem escrevi o meu balanço do ano de 2017 e, no entanto, sei bem que muitas coisas se passaram desde então. O tempo é assim: há tanto a acontecer que nem nos damos conta da quantidade de momentos por que passamos!
  Vamos lá a esse balanço final, seguindo os tópicos do ano de 2017.
1 – Amizades
  Se 2017 foi um ano de redefinição de amizades, 2018 foi um ano bastante constante neste aspeto. Conheci pessoas novas, sim, e cada uma delas me marcou à sua maneira. No entanto, sinto que tive amizades bastante sólidas este ano, até porque sei quem é verdadeiramente meu amigo e que tipo de amigos tenho.   Ao contrário do que pensamos, as amizades são mais complexas do que parecem. Nem tudo é tão simples como parece, porque ninguém é simples. As amizades são fruto de um t…

Outonalidades

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A (des)coloração
O Outono já se instalou e, nos campos em redor, as belas cores da estação já fizeram a sua aparição. O amarelo, o cor de laranja, o castanho, o verde e o vermelho misturam-se numa harmonia perfeita que, na realidade, nada mais é senão o princípio do fim: em breve, cairão as folhas e o frio do Inverno matará a beleza poética do Outono.   O Outono agrada-me, assim como os últimos meses do ano. É a estação da mudança e, ao mesmo tempo, do sossego. A chegada do Outono e os primeiros dias de frio são mágicos para mim, pois representam um período de reflexão e de uma certa paz para mim. Assim como as folhas das árvores, também as nossas almas começam a revestir-se de outras cores, cores essas que são fruto da experiência acumulada ao longo do ano. É a hora de colher os ensinamentos que nos trouxe este ano e de preparar o ano que se avizinha.

  Creio que já refleti sobre os ensinamentos que este ano trouxe; se calhar, até já refleti demais. Está na hora de certas folhas e de c…

Petit poème en prose

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O Crepúsculo da Alma

A noite vai-se arrastando e vai desfilando languidamente por cima das nossas cabeças. Qual mulher parisiense perfumada e ornamentada, a noite vai refrescando o ar rebentado de calor e faz entrar a brisa neste apartamento onde me abafo até ao Infinito. O dia de sol, belo e brilhante, causa-me desconforto, pois vivo em paradoxo. Amo o sol, amo as claridades e, no entanto, elas ferem-me, entram-me nos olhos com o poder de um tirano e arrancam a minha disposição. Vivo para as claridades porque fujo delas e as procuro em simultâneo. Tento escapar ao calor que tolhe, abate, faz ranger os nervos e magoa a alma, mas ninguém escapa às garras dele. O suor cai pelo corpo abaixo, a energia esmorece, a calçada brilha de loucura solar.   Tudo isto tem implicações nesta vida de afazeres da utilidade burguesa contemporânea, em cuja sociedade nos integramos. Movidos pelo ideal (talvez) nobre da eficácia, enfiamo-nos em edifícios que se alargam com o calor e que pedem leques a toda …

Reflexões contemporâneas

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Dívida Humana 
“Todos os dias, no aeroporto militar da cidade de Guatemala, um avião de 147 lugares aterra, transportando emigrantes capturados nos EUA e enviados para o seu país de origem.” Não sou eu que o digo. Limito-me a traduzir aquilo que aparece no instagram do jornal francês “Le Monde”. No conjunto de instastories do jornal, há um que me chama particularmente a atenção: Gracia, uma bombeira do Guatemala, dirigiu-se para o aeroporto para receber o seu irmão, mas ele não chegou hoje. Terá de voltar amanhã… As comunicações quase não são permitidas, daí haver dificuldades em saber em que dia chegam aqueles que foram expulsos.   Sentado num sofá confortável a observar as árvores e as plantas que começam a surgir nesta Primavera, ponho-me a pensar. Penso no sofrimento, na tristeza e na nossa ataraxia. Na nossa maldita calma, no nosso conforto burguês que é interrompido pelas nossas preocupações diárias, pelos pequenos “nadas” que nos chateiam. Penso no sofrimento dos outros, expulso…