A Ataraxia do Céu


  Sento-me e olho para o céu que ainda há pouco contemplava na rua. Preciso de ter as persianas abertas. Preciso de ver esse lugar cristalino e luminoso lá em cima...
  Caminhava como sempre caminho. Deslocava-me com um passo decidido e via a cor negra do alcatrão que pisava. Via essa cor até que decidi olhar para o céu e o que vi tomou conta de mim. 
  Um céu lindo e maravilhoso absorveu-me. Não era um céu digno das lentes dos que buscam a fama imediata, mas, sim, um céu que só a mim me falava. Um azul forte - mas não propriamente escuro - predominava, mas o céu tinha ainda nuances de violeta, cor-de-rosa e amarelo. Um céu que me transmitia a clareza, a beleza e o mistério de tudo. Um céu que me enchia. Que me preenchia. Que me foi. Que me é. 
  Algumas nuvens dissipavam-se e formavam, todas juntas, um fio, um risco bem grande de uma só cor. Podia ser cor-de-rosa, roxo ou aquele amarelo que caminhava a largos passos para o branco. Não interessa... O que me interessava era a sensação. Era aquilo que sentia. Era aquele céu acima de mim que, de um momento para o outro, me revolveu e me preencheu. 
  Apenas me interessava estar ali e contemplar aquele céu. Como descrever um céu que me concedia tanta paz e tanta calma? Como descrever este céu que me deu toda a quietação de que necessitava? Dizem, talvez com razão, que uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas será que uma sensação como esta, por mais fugaz que seja, não vale muito mais? Que céu mais bonito e encantador! Que céu mais pacífico e sereno! Que momento mais deliciante...
  Olho pela janela e vejo que o céu já escureceu. Já quase não se veem as cores que antes aí figuravam... Vestígios de um amarelo e de um rosa ficaram, mas rapidamente desaparecerão. E, no entanto, não estou triste com esta fuga de cores. Sinto-me mais feliz do que nunca. Contudo, talvez feliz não seja a palavra correta... Acho que a palavra correta é tranquilo. É isso: estou tranquilo. Quase diria imperturbável...
  O que me interessam as preocupações quando só o céu me encanta? O que interessa a ansiedade do quotidiano agora que revivo esta sensação? Tudo se foi, tudo está esquecido e perdoado. Contemplo o céu e aprecio o presente. Aprecio o presente, mesmo sendo fugaz. Sou a ataraxia. Não me posso nunca esquecer de quem sou... Não me irei nunca esquecer da cor deste céu. 
  Só não o descrevo melhor porque ele está em mim. Ele está em mim e eu estou onde sempre quis ser... 



Nuno Neves



  

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