Reflexões contemporâneas

Dívida Humana 

    “Todos os dias, no aeroporto militar da cidade de Guatemala, um avião de 147 lugares aterra, transportando emigrantes capturados nos EUA e enviados para o seu país de origem.” Não sou eu que o digo. Limito-me a traduzir aquilo que aparece no instagram do jornal francês “Le Monde”. No conjunto de instastories do jornal, há um que me chama particularmente a atenção: Gracia, uma bombeira do Guatemala, dirigiu-se para o aeroporto para receber o seu irmão, mas ele não chegou hoje. Terá de voltar amanhã… As comunicações quase não são permitidas, daí haver dificuldades em saber em que dia chegam aqueles que foram expulsos.
  Sentado num sofá confortável a observar as árvores e as plantas que começam a surgir nesta Primavera, ponho-me a pensar. Penso no sofrimento, na tristeza e na nossa ataraxia. Na nossa maldita calma, no nosso conforto burguês que é interrompido pelas nossas preocupações diárias, pelos pequenos “nadas” que nos chateiam. Penso no sofrimento dos outros, expulsos de um país para onde foram sem nada e do qual saem sem nada. Sem ajuda, sem sorte, sem dinheiro talvez. Penso na tristeza daqueles que os esperam sem saber quando chegarão. Não sabem nunca quando chegará esse avião – aquele avião. Não o avião de hoje, embora seja o mesmo, mas sim o avião derradeiro, que trará o parente ou o amigo que tão devotamente é esperado e é chorado.

Gracia, à direita, esperava a chegada do seu irmão.

  Vejo os malmequeres da minha janela e o sol do fim de março – este sol chato que dá dores de cabeça, agora que ainda não estamos habituados a ele -, querendo esquecer-me de tudo o que li. Mas já se sabe que o cérebro é matreiro: quanto mais queremos esquecer, mais nos lembramos. E lembro-me, então, de tudo.
  Lembro-me das guerras na Síria, no Iémen, no Médio Oriente. Lembro-me de uma Europa ameaçada por uma extrema-direita. Talvez me lembre dessa parte da Europa precisamente porque está sem memória. Sem memória do que se foi e – pior – sem memória do que se é. Lembro-me de Guatemala. Lembro-me de todos aqueles que são deportados, daqueles a quem a vida fechou a porta.
  Na ocidental praia lusitana, sentimos a Primavera chegar e vivemos com tranquilidade os dias que antecedem a Páscoa. Passamos o tempo a contemplar os arredores ou, então, perdidos nos afazeres quotidianos e banais, sem nos lembrarmos muito das outras realidades – aquelas que estão lá fora à espera.  Esperam ajuda, compaixão e solidariedade, mas não recebem nada. Receberão bombas em troca. Serão expulsos do país para onde foram sem nada. Ouvirão as crianças e os velhos a gritarem, a pedirem que alguém lhes estenda a mão. E nós continuamos a deliciar-nos com os bolinhos da Páscoa, como se nada fosse.
  Talvez o façamos porque não sabemos o que fazer ou porque há demasiadas utilidades a chatearem-nos o juízo. Talvez não façamos nada porque nos querem sossegados. Seremos hipócritas? Sentado perante um computador, com tudo ao meu alcance, com PAZ, penso em tudo o que nós fazemos. Sim, nós escrevemos. Sim, nós indignamo-nos. Sim, nós desenhamos. Sim, nós mostramos os horrores nas notícias. E, no entanto, será que isso conta?
   Conta ter memória, sim. Conta sem dúvida alguma coisa escrever, dizer algo, tentar mostrar; pior seria ficar parado. No entanto, repito: (não) seremos hipócritas? Acho paradoxal escrever estas palavras, através das quais tento – tento apenas – transmitir o desagrado, a tristeza, o horror que diariamente tem lugar, ao mesmo tempo que levo uma vida tranquila, descansada e calmíssima neste mundo burguês. Achamos que estamos sobrecarregados porque nos esquecemos de olhar para os outros. Os outros, que estão sobrecarregados de lágrimas e de pesadelos. Os outros, que diariamente acordam sem saberem se haverá um amanhã. E nós deixamo-nos ficar. Talvez a culpa não seja minha, nem tua. Talvez sejamos apenas uma parte de um sistema demasiado grande, demasiado forte e demasiado aniquilador, no qual o valor económico de cada um vale mais do que o resto. Tudo é mesurável.
  Quanto valerá, na bolsa, o sofrimento de uma pessoa que é expulsa do país para onde se dirigiu? Quanto valerá, na bolsa, não ter respeito pelo outro? Quanto valerá, na bolsa, este texto que escrevo e que talvez de nada serve? Quanto valerá ser humano? Quanto valerão as lágrimas, os gritos, as mutilações, as ânsias? Quanto valem as nossas emoções? Quanto custa a memória? Qual é o preço de nos esquecermos? Falamos diariamente de dívidas, esquecendo-nos de que a dívida para com a humanidade nunca pode ser perdoada. Pagá-la-emos nós.


“Oh, wonder!
How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world,

That has such people in ’t!” 
(Shakespeare - The Tempest, Act 5, Scene 1)

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