Short story

Nota inicial


  Olá a todos! Já se passaram alguns dias desde a última vez que escrevi no blog. No entanto, como não vos quero desapontar, decidi trazer algo novo: uma short story. Hoje, publicarei a primeira parte desta short story ainda em construção. Trata-se de um desafio que estou a impor a mim mesmo, pois "obrigar-me-ei" a escrever uma narrativa mais longa e diferente de outros textos anteriormente publicados. Para além disso, trata-se de um desafio para vocês, leitores, que terão de esperar pacientemente pela continuação desta short story...
  Boas leituras! 



Linhas Cruzadas, Artes Amadas

Parte I 

  Era mais um dia de Inverno. Lisboa vestia-se com casacos pesados, optava por cachecóis de malha e metia meias em cima de meias para cobrir o seu frio. Uma rapariga saía de um prédio. Era um prédio banalíssimo, de um branco já sujo pela idade e pelo tempo, onde se aglomeravam essencialmente famílias da classe média. Maria era uma exceção. Com 21 anos, vivia na grande capital de Portugal, partilhando um apartamento com uma outra rapariga.
  Maria saía à rua e preparava-se para enfrentar mais um dia. O seu primeiro pensamento foi “Preciso desesperadamente de um café”. Sabia que a sua cabeça continuaria um pouco pesada enquanto não tomasse um café bem português. Entrou num café perto da sua zona residencial e sentou-se numa mesa. Era um café banal, embora fosse bonito. As paredes estavam pintadas de amarelo. Um amarelo moderado, que não era berrante, nem apagado. Um amarelo bonito, na realidade. A montra estava adornada com croissants, queques, folhados mistos, palmiers a perder de vista. As raparigas que trabalhavam no café – certamente mais velhas do que ela – ocupavam-se dos pedidos dos clientes e talvez por isso ainda não a tivessem visto. Aquele pequeno estabelecimento agradava-a. Sentia-se, em primeiro lugar, quente, o que era bastante importante, dado que já era Inverno. Em segundo lugar, todos aqueles que aí trabalhavam eram extremamente simpáticos (algo que nem sempre acontece…). Para além disso, o ambiente agradável, limpo e perfumado daquele lugar combinava com a sua personalidade.
  De repente, uma empregada, bem maquilhada e enfiada no seu uniforme, veio perguntar-lhe o que desejava: “Queria um café, se faz favor.” A rapariga disse “É para já” e olhou-a de uma forma doce, quase lânguida, onde se via uma alma amorosa e, no entanto, fogosa. Aquele olhar arrebatou-a e fascinou-a. Aquele olhar teria um significado? Talvez fosse apenas impressão dela… o sono tem destas coisas, não é?
  Continuou a apreciar o belo café. Pensou em pegar no seu telemóvel e consultar as malditas redes sociais, mas decidiu que não. As redes sociais, das quais ninguém se consegue desligar hoje em dia, são mais um fator de distração e – na sua opinião – de ansiedade. E ansiosos já os há que chegue sem redes sociais. Entretanto, a sua chávena de café apareceu e, depois de ter colocado um terço do pacote de açúcar, decidiu bebericar o seu café, sentindo-se renascer internamente com aquele néctar dos deuses. De repente, a frase que aparecia no seu pacote de açúcar – mais uma daquelas frases banais, de marketing, mas que acabam por alegrar o dia das pessoas – captou a sua atenção. “A vida são marés e marés de tristezas salvas por um sorriso ou por um olhar.” Quem seria o autor daquela frase? Uma Telma Gomes… Provavelmente, alguém que tinha participado num concurso só pelo gosto de ver publicada uma frase sua. E, apesar de não ser de um autor conhecido, aquela frase deixou-a algo perplexa. Voltou a lembrar-se do olhar da bela rapariga que a havia atendido… Não foi propriamente um olhar salvífico, mas será que os olhares não podem trazer informações profundas e surpresas coloridas a esta vida cheia de tristezas?
  Arrumou os seus pertences e dirigiu-se ao balcão para pagar. Estava lá a rapariga que a atendera, de ar sorridente e bem-disposto, a quem voltou a sorrir enquanto lhe entregava os 80 cêntimos do café. A rapariga colocou o dinheiro na caixa e disse: “Obrigada. Sei que a voltarei a ver.” A sua voz dócil arrastava-se, como se fosse a cauda de um vestido de veludo, e dava a sensação de que queria prender Maria com a sua beleza encantadora. Maria agradeceu, fez um sorriso em que se denotava alguma perplexidade e decidiu que estava na hora de sair e ir embora. As suas aulas estavam quase a começar. Mais um dia de aulas para uma estudante…
  Entrou no autocarro, pegou na sua agenda para planear a sua vida e, mais uma vez, a frase daquela "autora" veio-lhe à cabeça: “A vida são marés e marés de tristezas salvas por um sorriso ou por um olhar.” Decidiu anotar a frase na sua agenda, enquanto pensava em quão belas, quão estéticas e quão edificantes podem ser as frases… Maria ainda não sabia, porém, que as frases também encerram em si uma magia poderosa, alterando o Destino e a vida de cada um. Aquela frase não aparecera por simples acaso… 


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