Espírito de Verão


  A Memória de (me) Imaginar

  Pegar nos tachos, nas colheres e nos pratos. Agarrar uma cebola, picá-la bem picadinha para lhe sugar a essência minutos mais tarde. Selecionar a quantidade de massa necessária para o jantar. Colocar o tacho da massa ao lume, cheio de água e sal. Fazer um refugado com a cebola já cortada, adicionar azeite e polpa de tomate. Abrir a lata de atum à pressa, como se o tempo me fugisse das mãos, e fazer deslizar o conteúdo daquela lata para dentro do tacho onde o refugado prontamente o esperava.
  Acabar de cozer a massa. Sentir o vapor queimar-me as mãos e aquecer-me o espírito. Abrir a porta da varanda para deixar entrar o ar.
  Parar.
  E sentir o vento. O vento que me envolve e embala, enquanto a música me explode nos ouvidos e sinto as minhas pernas a dançar enquanto vou tratando da comida. Imaginar-me numa casa de Verão, sozinho, sem ninguém a perturbar a minha ataraxia, longe de todos. 
  Voar para uma casa no campo no norte de Portugal. Ouvir os pássaros na rua, a chilrearem, enquanto a comida brota das minhas mãos de escrita.



  Entrar no futuro, imaginar-me a entrar em casa depois do trabalho. Ver uma cozinha cheia de rosas, crisântemos e gerânios. Cheirá-los até ao interior de mim. Deixar entrar esse aroma e viver o vento a entrar pela janela. Tirar a roupa do dia e ser livre. Olhar para os relatórios e decidir que o melhor é cozinhar. Temperar a comida como se não houvesse mais vida do que o tempero. Fazer chá de erva cidreira e beber como se me quisesse embriagar de calma. Sentir os pés a pedirem música acústica e ligar o rádio… Sorrir para o meu amor e dar-lhe um beijo na testa. Festejar a vida e a união dentro de uma cozinha cheia de essência.
  Voltar ao Verão passado. Sentar-me no terraço de casa, colocar uma cadeira lá fora. Pegar n’Os Miseráveis e entrar num outro mundo. Ser conduzido por Victor Hugo pelos meandros da França do século XIX. Respirar fundo e esquecer-me dos outros. Entrar em casa só à hora de jantar, com a alma embriagada de romances e de histórias.
  Reviver o dia de ontem na minha imaginação. Beijar o sol que me queima o corpo na totalidade. Entrar na água fria, cheio de medo. Sair dez minutos depois por não querer mais o frio. Ler em voz alta um livro sobre um médico alemão a passar férias na Itália. Comprar batatas fritas e devorá-las com sofreguidão. Correr para o autocarro a falar sobre o futuro. Entrar no autocarro com vontade de partir para nunca mais me voltar. Deixar que o vento entre em mim. Sentir-me um turista no meu país. Ser levado a viver nos subúrbios desta cidade. Ver o sol a fugir por entre as árvores que me parecem acenar do outro lado da rua.
  Beber champanhe gelado no topo da torre Eiffel. Passar os dias a falar Francês e a comer deliciosos bolos nos cafés típicos. Imaginar-me a percorrer os boulevards e a cantar dentro de mim a Marselhesa. Sair do meu canto e perder-me nos lugares de que falou Victor Hugo. Recordar a vila de infância enquanto passo ao lado de restaurantes atolados de homens e mulheres de negócios.



  Voltar a casa. Entrar dentro da casa, cheirar os lençóis de linho, ver a comida da mamã e reviver. Sentir a essência refluir a mim mesmo. Ver o terraço onde tantas horas passava a ler no Verão e sentar-me lá. Ficar sozinho na noite, a ser engolido pelo matagal e pelas cores do céu.
  Viver em paz. Regressar a mim. Sentir o Verão a tocar-me nos nervos. Ser queimado pelo fogo do sol. Mergulhar no rio do ser. Ver aqueles que me eram amigos. Olhar para as luzes que se refletem nos vidros. Ser feliz e desejar que o Verão me seja.

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