Ode à Noite

Evasão


  A porta da varanda está entreaberta. O ar fresco e leve da noite convida-me a entrar no ambiente noturno como se me encaminhasse para um percurso errático, de exploração profunda da minha psique. Sento-me na cadeira que está na rua e dou por mim a fumar um cigarro. 
  O fumo esvai-se, atraído pela lua, cuja luz radiante e majestosa se arrasta nas sujas lajes do pavimento e me recorda de que estou sozinho na noite.
  Os prédios em redor parecem formar paredes que delimitam um claustro constituído unicamente pelo pátio reles da vizinha. A luz da cidade é tão banal e útil que me sinto acometido de uma vontade de me revoltar contra o mundo capitalista e burguês em que ainda vivemos.


  Que vontade de ser como as nuvens, de me colorir com as cores do céu, de dançar com a vida de quem as contempla, de ter matizes laranja num tom negro ou matizes negras no laranja do céu! Rodopiar na flutuação do ser, sair de mim e entrar no céu desvairado e aterrorizador. Ser-me e não me ser, entrar no ar fresco e esquecer-me, enfim, do ar pesado e abafado onde me enfio nos meus afazeres. Os afazeres de uma vida que, contra mim mesmo, é guiada pela maldita Utilidade. E, ao mesmo tempo, é guiada por mim pelo mais alto Espiritualismo que sinto finalmente nesta noite de agradável brisa fresca.
  Não penso em nada na varanda. Penso, talvez, em ti, Cesário. Ou em Baudelaire, quem sabe… Penso no que terás sentido, estando preso dentro de uma uniformidade burguesa. Sendo tu um burguês que se queria outrar e não o conseguia fazer. Sendo tu o deambulador, o flâneur de Lisboa. Aquela Lisboa onde tu te perdias, onde vias os magasins e onde o céu baixo e de neblina te dava desejos de sofrer. O incómodo que sentias e a verve que tinhas! Ó Cesário, como também eu gostaria de ser um flâneur, de me imiscuir na vida citadina, de ver as varinas opulentas, de sonhar com Paris e Madrid ao ouvir o barulho dos veículos… Mas não sou.
   Não sou porque me sou. E agora sou toda a noite. Toda a noite cheia de estrelas que não vejo. Sou toda a noite cheia de nuvens que pairam apenas à direita dos meus olhos, adquirindo tons alaranjados no meio de um céu negro esverdeado. Sou as luzes reles do passeio. E as paredes cor-de-rosa daquela casa restaurada. Sou-me a noite, como se me erguesse da minha funda Altivez.
 E sinto um desejo de gritar, de libertar tudo o que sinto, de deixar sair as putrefações do meu corpo, que morre e renasce e renasce e morre. Um desejo de entrar pela Noite dentro, de a ser! Uma vontade de fugir do quarto abafado onde me espera Camilo Pessanha e entrar no universo da fantasia, sem quê nem porquê! Saltar da varanda e cair nas estrelas que daqui não vejo, pois que vivo numa gaiola de utilidades! Entrar finalmente em mim e ser como o canto da ave: livre. 

  Mas não entro na Noite, nem salto da varanda. Deixo-me estar sentado, a imaginar o fumo do fumo, a sentir-me um opiário convalescente... Deixo-me estar aqui a imaginar os boqueirões citadinos onde os seres humanos se fecham e se enlouquecem… Deixo-me aqui no meu dia a dia de afazeres úteis, no meu dia a dia de aulas de Francês e de Literatura… Imagino o ir-me, mas fico pelo permanecer-me.
  E não é tão bom fugir ficando? Ó racionalidade, és verdadeiramente tudo…




"O Sentimento dum Ocidental"


 I

Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!"
(...)

Cesário Verde





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