Corredores



  Uma casa com um grande corredor, onde os meus passos se perdem. Salões que se cruzam e entrecruzam como num sonho em série. Sinto-me a cheirar as flores nos vasos, olho o sol que rebenta as janelas, visto-me com uma força ancestral que não sei de onde vem. Toco os mármores das estátuas com estas mãos finas, cheias de força espiritual e maduras de escrita. Estas mãos que tremem, que se animam, que me doem e que me são até ao fim. Com estas mãos me crio, me reinvento e me choro. Choro-me até à ponta dos dedos e cristalizo-me nesta mão magra, comprida, de dedos finos.
  A camisola às riscas ajusta-se-me ao busto e torna-me versátil. Flexível. As calças pretas fazem-me sentir estas pernas que me seguram, que me puxam para a frente como se nunca pudesse fazer outra coisa. Quem me impele a seguir? As botas devolvem-me o ser, a personalidade, ao mostrarem-me estes pés que arquejam, que querem descanso, mas nunca o pedem.
  Estou à frente de um espelho. Como? Apenas sei que estou e que me vejo. Vejo esta face, estes olhos escuros dilatados, que tanto veem. Sentirão eles o que veem? Vejo este nariz grande e estes lábios carnudos, a estalarem de vermelhidão, a mostrar a força bruta! A seiva que de mim sai!
  Mas quem está atrás daquela testa? Debaixo daquelas roupas? Dentro daquele corpo alto, delgado, talvez elegante? Quem me habita e me sai pelos olhos fora? Quem me sai dos lábios como um sopro de vento a dobrar as ramagens de uma floresta cerrada?



  O espelho não responde. Era bom que me desse a resposta ao que tanto quero saber. Mas que quero eu saber? Que quero eu sentir? Como me afirmo? Me imponho? Me sou? Como é que consigo evoluir? Quem me faz ser? Tantas perguntas e, no entanto, parece que as respostas não chegam.
  Sistemas filosóficos atrás de sistemas filosóficos. Páginas atrás de páginas. Livros atrás de livros. Lágrimas e mais lágrimas. Suor a escorrer por todo o corpo. Sangue a sair-me das mãos e, no entanto, onde está a maldita solução do enigma? A solução que me fará ir embora todas estas assombrações, estes pensamentos que me penetram, estas dores que me ferem!!!! Onde?
  Ah, como este espelho me cansou! O meu cansaço já era tão grande, mas este espelho abalou-me. Porque não consigo eu mergulhar o meu nariz nas rosas perfumadas do jardim sem conseguir estar sossegado? Porque não posso escutar estes discos que ocupam a minha secretária sem pensar? Porque não consigo sentir o sabor do açúcar nos meus lábios sem pensar em algo? Porque penso? Porque sou? Porque ME sou?
  Olho para a minha infância, para todo o meu passado, para tudo o que senti e tento completar-me. Quero entender-me como um puzzle. Quero escrever-me como uma história com princípio, meio e fim. Mas não sei se consigo. Tantas regras de psicologia - serão elas científicas? - invento para mim e para os outros. Tento perceber porque ME sou, mas a verdade é que não me percebo!
  Sou os livros que li, as imagens que vi e todos aqueles que por mim passaram, MAS NÃO SOU SÓ ISSO! NÃO SOU NEM POSSO SER! O que sou? De onde sai a energia de mim? De onde me saio? Quem construiu o espírito que passa por mim nos momentos de me ser? Quem me diz como reagir? Quem me faz pensar?
  Desenrolo-me em questões como se elas fossem as respostas. Quero dar-me as respostas. Quero encontrá-las e, todavia, nunca as encontrarei. Escrevo isto para dar um sentido a estes pensamentos caóticos e turbulentos que me ocorrem, mas não dou sentido a nada. Não sei que sentido tenho, mas sei que me sou.
  Sou-me... Sinto-me longe da ataraxia helénica tantas vezes! Será porque não consigo deixar de me ligar, de me vincular, de me intrometer na faceta mais banal da vida? Racionalizo-me todo como uma equação de segundo grau. Para quê? Isso não ME É. Penso-me até ao íntimo de mim mesmo para ver se consigo organizar-me, se consigo dar-me uma orientação, mas não dou... Mas será que eu me quero dar uma orientação qualquer? Uma postura neste mundo?
  Sou-me humano porque sinto, porque penso, porque me preocupo com tudo o que me é e não me é. Sou-me humano até à flor de mim, até ao mais profundo da minha alma, até aos meus nervos que sinto ranger com uma força tão aguda... Sou-me humano até ao fim. Quero eu a ataraxia? A paz? A calma? Entrar na espera tranquila e resolver-me?
  NÃO. Sou humano e a ataraxia não me é. É-me poucas vezes, pelo que não entra na flor de mim... Naquela flor que desabrocha e se reflete nos meus lábios vermelhos de sangue. O que quero eu? O que quero eu, verdadeiramente?
  Não sei o que quero. Mas sei o que pretendo neste momento. Não me abandono. Não me saio e não fujo. Mas mergulho-me.
  Corro pela estrada fora, passo pelas casas da classe média, vejo as árvores que me seguem, o sol que me queima e me faz arquejar até ali chegar. Chego, enfim, ao rio. Não é o Letes. É O rio. Aquele onde entro nu, como se nunca tivesse estado coberto por roupas. O meu corpo avança em direção à água e ela penetra-me os poros, acaricia-me o cabelo, lava-me a face e retira a cor dos meus lábios. Os olhos não são mais do que dois vidros onde a água embate. A minha cara é o meu escudo. As minhas mãos são a espada que se sagra, enfim, em nome de si e do ser a que pertence. As minhas pernas motorizam-me os movimentos enquanto se sentem renascer na pureza do rio. O meu peito esquece-se do ar para passar a respirar a limpidez. Todo o meu corpo se entrega ao rio, como a uma doce canção de embalar. Todo eu me sinto respirar, enfim. Respiro como se nunca o houvesse feito! RESPIRO-ME.
  Agora que me deito na erva batida pelos raios solares, sinto-me, finalmente, renascido das cinzas. Encontrei-me com o anterior a mim. Encontrei-me com a luz que me é; que nos é. Mas tenho de voltar ao ponto de onde parti, porque me sou humano. Quem te disse a ti - petit enfant - que a ataraxia é uma verdade? Apenas a genuinidade...



  "E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da Terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária. Gente estropiada, escarros de humilhação, e a fome, e o remorso, e o cansaço, e a loucura que emerge como um incêndio na noite, e a lepra, e a angústia da interrogação, velhos da idade do sofrimento, gente que espera, gente que sonha... De que abismos esta mensagem? A montanha vibra na sua massa branca ao apelo da ansiedade. Vozes de longe, cantando, cantando." Vergílio Ferreira, in "Aparição"












Comentários

  1. Muito bom, Nuno! És sem dúvida um excelente escritor! Espero que nunca pares de escrever. Abraço

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    1. Obrigado pelo elogio 😄 Fico feliz por gostarem do meu trabalho!

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