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Burocracia, sentimentalismo barato e docência

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Perdoem-me os professores que tiraram fotos com alunos e que mostraram as prendas que eles lhes ofereceram neste fim de ano. Perdoem-me porque, efetivamente, têm toda a razão em mostrarem-se felizes, tal como também eu fico de cada vez que tenho uma boa surpresa de um dos meus alunos. Lamento, no entanto, que seja raro isso acontecer. E lamento não vir escrever sobre isso. Segundo ano a lecionar. Fiquei colocado a dar Francês no final de agosto – YUPI! Apanhei seis turmas – e até gostei bastante delas! – e direção de turma. Não vou comentar o trabalho burocrático-mediador de Diretor de Turma para o qual não tenho paciência absolutamente nenhuma – como se o Ministério da Educação estivesse remotamente interessado naquilo que eu quero fazer. Porque, claramente, não está. Precisa de professores – nem que sejam formados à pressa e para fazerem todo o tipo de tarefas que se encontram nos antípodas da didática e da pedagogia. Creio que quem ouve falar de burocracia na comunicação social não ...
  Eu quero minha alma sondar   Mergulhar nas ondas desse mar,    Tenebroso elemento e só,    Do qual se deve ter dó.    Almejo da psique o saber,    Perceber os meandros do ser   De onde o constante pensar vem,    Como ele sempre vai mais além.    Será possível uma resposta?    Ou não alcançamos a dura encosta?    Eterna busca, a minha.    Como descobrir o segredo?!    Mas sigo com força, sem medo:    Somos um cristal por descobrir...

Poema

Deixo que a claridade me cegue.  Não adianta lutar contra ela, berrar, revoltar-me,  Assim é, assim a aceito.  Maio chegou e, com ele, uma claridade feroz Uma claridade que nos atinge a nós. Todos.  Todos a recebem, todos são encadeados por ela  Não adianta escaparmos como uma ferida gazela...  O branco queirosiano das casas refulgentes,  A seiva bruta das plantas,  O cheiro do campo e do dourado Sol,  A minha cabeça e os meus olhos tão cansados quanto fascinados.  Amo esta luz que me fere.  Talvez a ame por minha não ser,  Por ter de a aceitar.  Aceito-a como aceito o absurdo do mundo:  às vezes esperneio contra ele, mas  não adianta.  Hoje o dia é de sol,  Talvez a chuva venha aí um dia destes...  Talvez...  Perco-me nestas conversas dubitativas de uma época dubitativa.  Amanhã hei de acordar (porventura)  E ver o dia que se ergue contra a minha insig...

Adeus

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Passear nas minhas ruínas   Quando vivia em Rouen, costumava ir, aos domingos, ao "Jardin des Plantes". Talvez não fosse todos os domingos, mas ia lá muitas vezes quando o tédio domingueiro se apoderava de mim e o ar fresco era o único bálsamo disponível. Mentiria se dissesse que é o mais belo parque que vi em toda a minha vida, mas era agradável. Era agradável sobretudo porque eu estava lá, naquela bela cidade que me acolheu. Uma cidade bonita, com cores medievais e oitocentistas, ainda que o seu clima nem sempre me fizesse sorrir.    Tenho saudades desses domingos em que o tédio me inspirava sentimentos ora de tristeza ora de solidão. Como é possível sentir falta de algo assim? Creio que sinto falta do que esses momentos representam porque eles me representam. Representam uma parte de mim que ficará para sempre em França. Mesmo que um dia volte a passar por lá - assim o espero! -, as coisas não serão idênticas. Eu já não serei o mesmo e aquilo que Rouen tive...

Textos da quarentena 14

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Amanhã é um novo dia   A minha quarentena chegou ao fim. Chegou ao fim de uma maneira estranha, uma vez que deixei de estar trancado no meu quarto para poder apenas deslocar-me para as outras divisões da casa, nas quais passava anteriormente menos tempo – ou quase nenhum, para ser sincero. A chuva cai lá fora e sinto-me vagamente nervoso, triste, esquisito. Entediado? Não creio. Talvez perdido nos meandros frios da minha mente.   Passei dias a fio quase sempre dentro do meu quarto. Não me posso queixar. Tenho um quintal, por isso, pude apanhar ar algumas vezes. Estudei Italiano. Voltei a pegar nos meus livros de Latim e descobri que tinha saudades do desafio mental que é estudar a língua em que escreveu Séneca. Li Proust. Fui à Internet. Entretive-me como pude e, até certo ponto, correu bem. Gostei da solidão, gostei da companhia dos livros. Talvez precisasse da solidão depois de dias de ansiedade infindável num país estrangeiro. Talvez precisasse de me fechar dentro ...

Textos da quarentena 13

Sonata a duas mãos     Não estou num bom dia para leituras. Está chuva lá fora, está frio cá dentro, cá bem no fundo. Não há aquecedores que me salvem. Não me salva o Frédéric Moreau do Flaubert, nem o Cláudio do Vergílio Ferreira. Estava tão bem na paz da manhã, a saborear o tempo cinzento, a beber imagens esplendorosas, a ler umas páginas, a desfrutar do tempo – ou a perdê-lo, depende.   Agora estou sem paciência, não sei. Há momentos assim. A música acaricia-me suavemente, um pouco, bastante. Salva-me um pouco das nevroses, do tédio, de tudo. Efemeramente. Refugio-me na minha cabeça, nos dias bons, nos dias menos bons, em chávenas de chá quentes que não me aquecem a alma, talvez apenas o corpo.   O dia está solarengo. Vem uma brisa fria, mas não me incomodo. Saio de casa, vestido com um longo casaco e um cachecol azulado, com um pouco de castanho. Não gosto de castanho, mas este castanho é claro, doce, fica bem naquele mar de azul-noite. Faço o m...

Textos da quarentena 12

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O Domínio da Língua Materna   Hesitei antes de escrever este texto, mas aqui vai ele! O tema de hoje é o do domínio da língua materna. Evidentemente, irei falar sobre o domínio do Português, que é a minha língua materna e também a língua materna de uma boa parte daqueles que leem os meus textos. Trata-se de uma reflexão fundamentada por experiências que tive e por observações que fui fazendo ao longo do tempo.    Sou formado na área das Línguas e Literaturas (Português/Francês) e talvez isso também influencie a forma como vejo o uso da língua materna. Ainda assim, acredito que dominar convenientemente o Português é um trunfo não só profissional, mas também psíquico.    Atualmente, muitos professores de Português sentem dificuldades em chamar a atenção dos alunos e em incutir-lhes o gosto da leitura, da escrita e da gramática. Será culpa das novas tecnologias que afastam os alunos da leitura tradicional? Será culpa de raciocínios básicos como "e...