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Lugar
O fim do dia dá entrada na fria Normandia e traz com ele um céu azul pálido, entrecortado por linhas cor-de-rosa que não chegam a transmitir a sua força total aos meros mortais que ainda se arrastam pelas ruas da cidade. O relógio celeste indica-nos que, em breve, o período da luz, da energia e do movimento frenético acabará. Vejo, a partir dos vidros do metro, as cores do céu. A paz que se vai instaurando nesta cidade à beira do Sena, rio que se deixa alegremente pintar com as cores celestes, sejam elas frias ou quentes, feias ou belas. Gosto de olhar para o céu, mas o metro passa demasiado rápido e a vida útil pesa tanto. A produção e a eficiência são o nosso eterno credo – o credo de um mundo onde já não há valores afetivos, mas sim monetários. A minha paragem é a seguinte. Tenho de me preparar; lá fora está frio. Bem agasalhado, munido dos meus fones nos ouvidos para esquecer os ruídos citadinos, aí vou eu seguindo pelas ruas que me conduzem até casa. A beleza do frio é imp…

Assistente de português

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Ser Assistente

Há muito tempo que não venho aqui... Na realidade, já há algum tempo que não escrevo. Vou sempre escrevendo, mas hoje trago um tema especial: a minha experiência enquanto assistente de Português em Rouen, França. Amanhã regresso a Portugal para as minhas férias de Natal e, para mim, é como se a primeira parte desta experiência já estivesse concluída. Chegou a hora de a partilhar com o mundo. 

1 - O que é ser assistente? 

  Ser assistente de língua é um projeto de "France Éducation  International" que permite a nativos de língua portuguesa, espanhola, alemã, inglesa, chinesa e árabe trabalhar em França, em escolas públicas (no ensino primário, básico ou secundário). Obviamente, nativos da língua francesa podem também decidir ser assistentes de francês num país com o qual haja este protocolo - como é o caso de Portugal. 
   No meu caso, a minha missão consiste em ajudar e dinamizar as aulas de Português nas 3 escolas onde trabalho, o que quer dizer que trabalho com …
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Choro de Palavras
  Imperscrutável. Gostaria que o meu rosto se tornasse imperscrutável. Que fosse sempre imperscrutável, como a brisa noturna que me acaricia os pés ao mesmo tempo que me esvazia os pulmões de melancolia. Gostaria de deixar de ser um aglomerado de raiva e de tristeza contra alguém ou contra alguma coisa cujo nome anseio descobrir. Gostaria de ser uma alma da ataraxia, mas sou um boneco demasiado humano que sente tudo e que tudo deixa alojado na sua alma. O dia esmorece e nunca estive tão feliz por isso. O calor enlouquecedor da tarde dissipa-se e dá origem a um crepúsculo tingido de roxo, cinzento, laranja e azul. O calor e a luz lancinantes matam-me de dia e só o reinado do crepúsculo me faz, enfim, suspirar. Sinto uma ligeira acalmia; a vontade de rasgar a caixa torácica e de me esganar num grito apazigua-se. A brisa leva os pensamentos inconstantes que se apoderam de mim e põe fim a mais um dia. Um dia como qualquer outro, em que tudo quis fazer, mas não sei se fiz a…

Sufoco urbano

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Abafo. Abafo dentro desta casa, destas paredes sem vida, brancas de lividez e de dias aqui passados. A noite chama-me. O vento é frio, a chuva vai fustigando os poucos que se aventuram a sair de casa, mas está na hora de sair. Cometer uma pequena loucura num mundo racional.
  Visto-me, pego no chapéu de chuva e vou-me embora. Pudesse eu ir-me embora de vez… Como daquela vez ao pé do Tejo, onde via os reflexos da luz caírem pelo rio abaixo, e eu imaginava-me a ir, a partir, a levantar voo. E agora estou só, mergulhado na noite citadina, esmagado pelos edifícios que me envolvem, ninguém se atreve a sair de casa, oiço dois ou três carros que passam corajosamente por mim. Nem posso deambular como deve ser, a noite não me quer longe, fico por aqui, tem de ser… Vou pelas ruas da vizinhança, no meio do ar húmido, e ando para cima e para baixo a olhar para edifícios e edifícios entrecortados por uma rara vegetação deixada para trás pela contemporaneidade urbanística. Não tenho destino, nem s…

Ficções

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Chá de Alma


Sol.   Hoje o tédio levantou-se cedo, saiu da cama, viu o sol. “O dia está belo” – pensou. Belo dia para se passear pelas almas afadigadas, para se mostrar nas ruas, para se divertir com os burgueses. O tédio veste-se. Um manto púrpura brilhante, escondendo roupas pretas, evidentemente. Empalidece propositadamente, busca com mãos venenosas a sua escova, penteia-se de modo arrojado, louco, frenético.   Aí vai ele, deslizando, desfilando, como se todo o mundo fosse dele, como se esta vida não lhe pertencesse senão a ele. O tédio desfila e, no seu manto, pode ler-se “Chamem-me tédio, spleen, ennui, mal-estar ou sadness. Não interessa o meu nome”. Realmente, não interessa o nome que se lhe dá e, no entanto, sem esse nome, sem esse epíteto vivo, o tédio não seria mais do que uma mera forma estranha. O seu nome é a sua identidade.   O desfile ainda não terminou. O sol. Faz-lhe bem o sol, pelo menos assim pensa. Adora passear-se ao sol, sempre poupa um pouco as suas queridas pres…

2018

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Balanço do ano de 2018

Parece impressionante a velocidade a que um ano passa… Quando estamos “dentro” do ano, bem lá no meio, não nos parece tanto assim, mas a verdade é que eles não passam assim tão devagar. Parece que ainda ontem escrevi o meu balanço do ano de 2017 e, no entanto, sei bem que muitas coisas se passaram desde então. O tempo é assim: há tanto a acontecer que nem nos damos conta da quantidade de momentos por que passamos!
  Vamos lá a esse balanço final, seguindo os tópicos do ano de 2017.
1 – Amizades
  Se 2017 foi um ano de redefinição de amizades, 2018 foi um ano bastante constante neste aspeto. Conheci pessoas novas, sim, e cada uma delas me marcou à sua maneira. No entanto, sinto que tive amizades bastante sólidas este ano, até porque sei quem é verdadeiramente meu amigo e que tipo de amigos tenho.   Ao contrário do que pensamos, as amizades são mais complexas do que parecem. Nem tudo é tão simples como parece, porque ninguém é simples. As amizades são fruto de um t…

Outonalidades

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A (des)coloração
O Outono já se instalou e, nos campos em redor, as belas cores da estação já fizeram a sua aparição. O amarelo, o cor de laranja, o castanho, o verde e o vermelho misturam-se numa harmonia perfeita que, na realidade, nada mais é senão o princípio do fim: em breve, cairão as folhas e o frio do Inverno matará a beleza poética do Outono.   O Outono agrada-me, assim como os últimos meses do ano. É a estação da mudança e, ao mesmo tempo, do sossego. A chegada do Outono e os primeiros dias de frio são mágicos para mim, pois representam um período de reflexão e de uma certa paz para mim. Assim como as folhas das árvores, também as nossas almas começam a revestir-se de outras cores, cores essas que são fruto da experiência acumulada ao longo do ano. É a hora de colher os ensinamentos que nos trouxe este ano e de preparar o ano que se avizinha.

  Creio que já refleti sobre os ensinamentos que este ano trouxe; se calhar, até já refleti demais. Está na hora de certas folhas e de c…