Monet, luzes e ação
O fim de tarde chega, de mansinho, prestes a refrescar a
paisagem queimada pelos raios de sol enraivecidos de Verão. É ele que
transforma o céu numa obra de arte, que contemplo como se visse a pureza do
Universo a voltar a mim. Saio à rua finalmente e tento fixar, na minha difícil
memória, a cor das nuvens que se descola daquele céu azul claro. Tento fixar a cor
das nuvens porque só elas me trazem um pouco de calma, um pouco de paz aos meus
dias de raiva, de ódio, de pânico, de gritos secos dados no meio da escuridão.
Vejo-me a anoitecer (de que dia falo eu?) e estico o meu corpo ágil em direção
àquelas cores que pairam no céu, como se elas conseguissem preencher este
vazio, esta insatisfação, esta falta de me ser, esta raiva de tudo me
martirizar. Quero dançar ao som do vento e tornar-me laranja ou então um
vermelho cor de sangue, como aquela nuvem perto da torre. Quero sentir aquele
azul a tombar para negro de que se reveste o céu pré-noturno. Quero mergulhar
no tom esbranquiçado …