Mensagens

Espírito de Verão

Imagem
A Memória de (me) Imaginar
  Pegar nos tachos, nas colheres e nos pratos. Agarrar uma cebola, picá-la bem picadinha para lhe sugar a essência minutos mais tarde. Selecionar a quantidade de massa necessária para o jantar. Colocar o tacho da massa ao lume, cheio de água e sal. Fazer um refugado com a cebola já cortada, adicionar azeite e polpa de tomate. Abrir a lata de atum à pressa, como se o tempo me fugisse das mãos, e fazer deslizar o conteúdo daquela lata para dentro do tacho onde o refugado prontamente o esperava. Acabar de cozer a massa. Sentir o vapor queimar-me as mãos e aquecer-me o espírito. Abrir a porta da varanda para deixar entrar o ar. Parar.   E sentir o vento. O vento que me envolve e embala, enquanto a música me explode nos ouvidos e sinto as minhas pernas a dançar enquanto vou tratando da comida. Imaginar-me numa casa de Verão, sozinho, sem ninguém a perturbar a minha ataraxia, longe de todos.  Voar para uma casa no campo no norte de Portugal. Ouvir os pássaros na rua, …

Ode à Noite

Imagem
Evasão

A porta da varanda está entreaberta. O ar fresco e leve da noite convida-me a entrar no ambiente noturno como se me encaminhasse para um percurso errático, de exploração profunda da minha psique. Sento-me na cadeira que está na rua e dou por mim a fumar um cigarro.    O fumo esvai-se, atraído pela lua, cuja luz radiante e majestosa se arrasta nas sujas lajes do pavimento e me recorda de que estou sozinho na noite.   Os prédios em redor parecem formar paredes que delimitam um claustro constituído unicamente pelo pátio reles da vizinha. A luz da cidade é tão banal e útil que me sinto acometido de uma vontade de me revoltar contra o mundo capitalista e burguês em que ainda vivemos.

  Que vontade de ser como as nuvens, de me colorir com as cores do céu, de dançar com a vida de quem as contempla, de ter matizes laranja num tom negro ou matizes negras no laranja do céu! Rodopiar na flutuação do ser, sair de mim e entrar no céu desvairado e aterrorizador. Ser-me e não me ser, entrar n…

Ab imo pectore

Imagem
Nuditas 

Face branca de pureza e genuinidade. Lábios carnudos como uma explosão de prazer e raiva. Cabelo escuro da força da terra, do cheiro da vida. Mãos suaves como uma jarra de flores. Corpo esguio e magro de planta flexível, cuja seiva flui continuamente. Sentado numa cadeira, a contemplar o céu de tons arroxeados e alaranjados a partir do terraço, sento-me e recordo-me como se fosse penetrado por uma acutilante sensação do passado por resolver.   Como esquecer os dias de pânico e angústia quando se é criança? Como esquecer o medo dos colegas, as palavras cruéis que eles gritam ao verem alguém que sabem ser diferente? Como não sentir uma dor pelos nervos dentro quando as palavras brutais e ferozes nos atropelavam quando éramos crianças? Como não sentir o desespero na pele quando te pontapeavam ou te pregavam uma partida? Como esquecer a chaga que ficou, que permanece, que nunca sarou e nunca há de sarar? A infância é sempre um período belo porque distante. Ela não é bela. Ela só é …

Corredores

Imagem
Uma casa com um grande corredor, onde os meus passos se perdem. Salões que se cruzam e entrecruzam como num sonho em série. Sinto-me a cheirar as flores nos vasos, olho o sol que rebenta as janelas, visto-me com uma força ancestral que não sei de onde vem. Toco os mármores das estátuas com estas mãos finas, cheias de força espiritual e maduras de escrita. Estas mãos que tremem, que se animam, que me doem e que me são até ao fim. Com estas mãos me crio, me reinvento e me choro. Choro-me até à ponta dos dedos e cristalizo-me nesta mão magra, comprida, de dedos finos.
  A camisola às riscas ajusta-se-me ao busto e torna-me versátil. Flexível. As calças pretas fazem-me sentir estas pernas que me seguram, que me puxam para a frente como se nunca pudesse fazer outra coisa. Quem me impele a seguir? As botas devolvem-me o ser, a personalidade, ao mostrarem-me estes pés que arquejam, que querem descanso, mas nunca o pedem.
  Estou à frente de um espelho. Como? Apenas sei que estou e que me vej…

"Je est un autre"

Imagem
No Canto do Olho
Saio de casa e mergulho na escuridão doce da noite. Eu, amante dos dias repletos de luz e de calor, troco a claridade matinal pela escuridão cerrada e sinto-me dançar na brisa fresca e cortante da noite, enquanto ouço os sons desta terra adormecida. Onde estou eu? Estou em casa... Naquela que é a minha terra natal. Estou na minha verdadeira pátria, aquela a que sempre recorro nos meus momentos de cansaço, de tristeza, de solidão, de desespero. Naquela pátria com a qual sonho quando não tenho sonhos e na pátria que me corrói quando os meus sonhos sabem que não têm lugar ali. Finalmente, encontramo-nos. Eu e tu, minha querida terra. Tu e eu, minha amada noite.
  Oiço os meus passos à medida que vou caminhando. A estrada ainda está ligeiramente molhada, pelo que o ruído das minhas botas não passa despercebido naquele momento. Continuo a caminhar no meio de uma estrada escura, estreita e ladeada por silvas e árvores, tentando, talvez em vão, encontrar uma luz suficientemen…

Chega de Estar

Imagem
O sol entra pelas minhas janelas e invade todo o espaço da minha casa, enquanto eu o deixo entrar em mim. Deixo-o, na verdade, infiltrar-se na minha pele como se o meu sangue fosse feito de finos raios solares.   Decido acabar com os dias tristes que estão alojados na minha corrente sanguínea. Ponho fim às inseguranças, às tristezas e às desilusões tão constantes e substituo-as pela vida oriunda dos dias de sol brilhante. Não consigo mais estar triste enquanto sinto esta luz dourada a penetrar o meu ser.   Largo as vicissitudes. Largo a amargura. Largo quem sou nos dias tristes e extenuantes. Saio de mim mesmo. Arranco o meu sangue e troco-o por quem realmente deveria ser. Abro a janela e esqueço que tenho um rosto e que sou alguém. O sol toma conta da minha face, os meus olhos esquecem-se do castanho e tornam-se azuis como o céu que me toca no interior. No meu âmago. O vento é o meu cabelo. E todo eu sou o próprio dia de sol.

  Como manter esta apatia, esta tristeza, este nervosismo? C…
Imagem
A Ataraxia do Céu

Sento-me e olho para o céu que ainda há pouco contemplava na rua. Preciso de ter as persianas abertas. Preciso de ver esse lugar cristalino e luminoso lá em cima...
  Caminhava como sempre caminho. Deslocava-me com um passo decidido e via a cor negra do alcatrão que pisava. Via essa cor até que decidi olhar para o céu e o que vi tomou conta de mim. 
  Um céu lindo e maravilhoso absorveu-me. Não era um céu digno das lentes dos que buscam a fama imediata, mas, sim, um céu que só a mim me falava. Um azul forte - mas não propriamente escuro - predominava, mas o céu tinha ainda nuances de violeta, cor-de-rosa e amarelo. Um céu que me transmitia a clareza, a beleza e o mistério de tudo. Um céu que me enchia. Que me preenchia. Que me foi. Que me é. 
  Algumas nuvens dissipavam-se e formavam, todas juntas, um fio, um risco bem grande de uma só cor. Podia ser cor-de-rosa, roxo ou aquele amarelo que caminhava a largos passos para o branco. Não interessa... O que me interessava er…